Sustentabilidade e Moda

A mudança na indústria da moda pode acontecer em muitas situações, de maneiras surpreendentes e até desconcertantes. Às vezes, a maior mudança vem de uma série de pequenas ações individuais, não de grandes proclamações internacionais – uma percepção que a põe ao alcance de todos nós. (FLETCHER e GROSE, 2006)*

Releia a frase acima. “A maior mudança vem de uma série de pequenas ações individuais”. Essa frase por si só poderia ser o post de hoje. Fala sobre responsabilidade, mas sobre possibilidades. Ela nos mostra que o poder da mudança, está sim, em nossas mãos.

Mas antes de continuar filosofando, afinal, o que é sustentabilidade? Sustentabilidade é o termo usado para definir ações e atividades humanas que visam suprir as necessidades atuais dos seres humanos, sem comprometer o futuro, garantindo a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações. É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o futuro. Ou seja, a sustentabilidade está diretamente relacionada ao desenvolvimento econômico e material sem agredir o meio ambiente. Reconhecer que os recursos naturais são finitos e de que nós dependemos destes para a sobrevivência humana, para a conservação da diversidade biológica e para o próprio crescimento econômico é fundamental para o desenvolvimento sustentável. 

O processo de sustentabilidade ganhou força na última década e vem estimulando a indústria da moda a ser menos poluente, mais eficaz e respeitosa. A moda é a segunda indústria mais poluente do mundo, e está associada a todo tipo de impacto: mudanças climáticas, poluição química, perda de biodiversidade, efeitos adversos sobre a água, geração de resíduos, saúde humana. Para reduzir esses impactos, o processo deve ser repensado para usar o mínimo de recursos e causar o menor impacto possível, isso exige mudanças de ponta a ponta: nas práticas de segurança e saúde, acesso a salários e condições de trabalho dignos, nos modelos de negócio, no uso de agrotóxicos, no beneficiamento têxtil, na logística e no consumidor final – a última ponta.

E é aí que nosso papel, de fato, começa. Quando vamos comprar um item, qual nossa prioridade na hora da escolha? Tendência, funcionalidade, durabilidade, beleza, status, composição têxtil? Nós sabemos o quanto a moda é tentadora, envolvente, e o quanto comprar nos faz bem. Mas por quanto tempo dura essa sensação, você já observou? Como podemos prolongar essa sensação de bem-estar e satisfação pós aquisição? Para mim, essa sensação se prolonga quando vejo o valor agregado transcender ao valor material, quando sei que aquele item tem um design atemporal, quando foi feito com algum material sustentável, quando é durável, quando repercute positivamente na vida do produtor, ou quando alguma parte foi doada para uma ONG.

Mas nossa responsabilidade não acaba depois da compra, muito pelo contrário. É quando ela começa, porque ela deve perdurar por toda vida útil do item, até o momento de ‘descarte’. É nossa responsabilidade cuidar, fazer a manutenção, lavar da forma correta (sempre leia a etiqueta) Os brechós estão super em alta agora – eu adoro! – e muitos deles tem um acervo lindo de peças NUNCA USADAS. Isso reflete o quanto as pessoas compram por impulso. Eu já comprei muito por impulso, confesso, mas hoje eu penso em muitas coisas antes de comprar qualquer coisa. Penso no que eu já tenho, na funcionalidade, no design, na durabilidade, na composição dos materiais, se a produção é nacional, se tem projetos sociais sendo ajudados…

Imagem do filme “Os delírios de Becky Bloom”

Todos nós estamos passando por alguma dificuldade nesse momento de pandemia, de uma forma ou de outra. E já passou pela cabeça de todos nós, pelo menos uma vez: “quando isso acabar eu vou…”. Isso é o que chamam de Teoria das Recompensas, quando nos sentimos merecedores de um prêmio depois de passar por um grande desafio. E junto com a recompensa, vem o fenômeno “consumo de vingança”. Mas o que pode significar essa vingança? Quando a quarentena terminar, muita gente vai reverter a tendência de apenas consumir itens essenciais para comprar itens de desejo. E aí que mora o perigo de comprarmos coisas que iremos nos arrepender, que não nos representam, ou que nem precisamos! Você pensou alguma vez sobre o que compraria quando a pandemia acabar?

Sabemos que esse consumo de vingança acontecerá. Mas se a gente pesquisar e pensar antes de agir, antes de comprar, poderemos sempre optar por uma opção mais respeitosa com o mundo e com quem produziu. Basta olhar ao redor para ver que tem muitas empresas se preocupando com o seu consumo. Lembre-se que “a maior mudança vem de uma série de pequenas ações individuais”. Que pequena ação você pode fazer hoje para mudar o seu consumo?

 

*A frase de Fletcher e Grose é do livro Moda e Sustentabilidade: Design para Mudança – o qual recomendamos a leitura para quem quer se aprofundar no assunto.