Relacionamento na pandemia

Faz um tempo que estou me sentindo diferente. Me sinto mais feliz, mais leve, mais completo. Os dias estão mais coloridos: o céu é mais azul, as folhas são mais verdes. A comida parece ter um gosto diferente, parece ter mais sabor! Os cheiros são mais intensos, as flores mais perfumadas. Os sons estão mais claros e o canto dos pássaros parecem música nos meus ouvidos. Me sinto vivo! Só há uma explicação para me sentir assim: o amor. 

Meu peito agora dispara

Vivo em constante alegria

É o amor quem está aqui

Parece um pouco contraditório, e até perigoso, iniciar um relacionamento em plena pandemia, mas o nosso começou assim. E no meio do caos, veio a paz! Eu estava esperando por alguém como ela, e ela estava procurando alguém como eu há tempos, e não deu mais para esperar. 

A quarentena não foi um período fácil para mim, principalmente no início. No primeiro mês, fui resgatado de um abandono, morei de favor, até que conheci ela.. o amor da minha vida! Mesmo de máscara, sabia que ela era a mulher da minha vida. Ela estava de azul, nunca me esquecerei. Ela me tratou como seu nos primeiros instantes, me deu carinho, atenção, me compreendeu como ninguém, e eu me senti amado. E logo a amei, incondicionalmente. Mas ela foi embora, e por alguns dias fiquei pensando se voltaria a vê-la. Foram dias de dúvida, de angústia, e sem saber como seria meu futuro.

Mas três dias depois, ela voltou! Fiz minhas malas e entrei no carro sem nem olhar para trás*. Sabe aquele sentimento de paixão intensa? De início de namoro? Em que todos os momentos você só pensa e quer estar com aquela pessoa? É assim que me sinto em relação à ela. Meu olhar segue seus movimentos, meu corpo quer estar perto do dela… Mas para minha surpresa, tem outro cara na jogada, vocês acreditam? Foi quando cheguei no meu novo apartamento que eu percebi, ele não sai do lado dela, eles se beijam e se abraçam, e ele me trata com amor! Fiquei confuso. 

Nos primeiros momentos era um mix de sentimentos. Ficava inseguro, não me sentia em casa, não queria ser amigo dele, mas não queria sair de perto dela. Bastava ela levar o lixo na rua, que eu entrava em desespero. Pulava nos armários, olhava pela janela procurando por ela. Com o passar dos dias, comecei a entender, meus novos companheiros de casa eram minha novo família. O amor da minha vida, era minha nova mamãe, e o amor da vida dela, era meu novo papai. 

E agora já não vivo mais sem eles. Passeamos todos os dias – eu não preciso de máscara porque não pego o corona, mas mamãe e papai se cuidam bastante para eu poder curtir meus passeios diários. Eles me levam sempre que podem para onde vão, e eu até já viajei com eles. Ganhei um emprego também, virei modelo da empresa da mamãe. Ganhei primos também: a Zuleica, o Kick e a Paçoca (com quem eu mais brinco). 

Hoje ganho colos frequentes, muuuuuito carinho, beijos e chamegos. Sou o xodó da casa. E sabe aquele sentimento de paixão intensa que eu falei no início do texto? Em que todos os momentos você só pensa e quer estar com aquela pessoa? É assim que me sinto em relação à minha família.

 

 

* Modo de falar para deixar o texto mais dramático (rs).

Sou eternamente grato àqueles que me salvaram: o moço do resgate, a ONG 4 patas 1 lar e a Kelly, que me deu um lar temporário.